Celofane

Sexta-Feira, 3 Julho, 2009

Eu lembro, lembro de muito, acho que demais, até do que queria não lembrar mais. Lembro do que importa, do que muda, do que motiva, do que me entorta. Também lembro do que me traz de volta, como aquele chute que quebrou o espelho quando me arrependi de ter sido tão idiota. Eternas, algumas boas, algumas ruins, e algumas indecisas, mas irrefutavelmente importantes lembranças.

Não esquecerei da única pessoa que me ensinou a amar, e depois a me odiar, e nem do que me ensinou que para receber é preciso se entregar. Aquela primeira viagem sozinho, que ilógicamente me fez sentir bem acompanhado, diferente da primeira, de muitas vezes, que mesmo entre amigos, me senti terrivelmente sozinho, mas que depois me fez perceber que era com eles, que mesmo mal, eu queria estar.

A primeira promessa que fiz, chorando, foi a de não mais chorar, e descobri que as vezes é impossível se controlar, como fiz daquela vez, que jurando que não ia me deixar influenciar, deixei-me, e fiz a coisa certa.

Hoje eu tentei achar soluções pra esquecer coisas que eu gostaria de não ter descoberto, e agora eu sei que nem eu sou tão esperto. Dizem que mesmo experiências ruins trazem significativas lições, mas eu preferia cotinuar ignorante, a ter descoberto o quão rápido pessoas queridas e coisas boas podem ser perdidas. Para sempre. Impotência de mudar o passado e fazer o futuro, que mesmo aceitas me impedem de desistir do que procuro.

O susto bem dado, a piada inoportuna que me fez virar a própria, os programas de última hora que renderam ótimas histórias. O ir contra a vontade, fazendo o que parecia maldade, para só então perceber que o que parece ruim pode ser bom, e que às vezes mudar de idéia é a melhor opção.

Rio daquele pulo de barriga no rio, que era quase mais raso que uma poça d’água, daquela vez que, mesmo sem saber dançar, fiz todo mundo me copiar, e de quando mesmo sem saber cantar fiz uma multidão de cinco pessoas me acompanhar. Já cheguei a achar que nunca falaria ‘eu te amo’, e que toda vez que ouvisse isso fosse ser indiferente, mas o inesperado acontece, e é o que eu espero em recentes fatos que me dizem que nem tudo pode ser como eu quero, e que marcas que pessoas deixam não podem ser apagadas com outra, ou outras.

E agora eu fixo meu olhar na xícara de hoje, ainda cheia de café frio, misturado com as lágrimas de um dia vazio, que me fez acreditar que agora eu já não tenho mais nada a perder, e que vai passar, e virar lembrança.

“I can see forever all these things, they are obvious to me”

Change Is All The Rage, Knapsack


Dúvidas Enterradas

Segunda-feira, 29 Junho, 2009

Aquilo tomou conta de mim, era algo que nunca tinha acontecido antes. Eu me sentia diferente, como se fosse parte de algo maior, como se pudesse ser qualquer coisa. Lembro-me de que, assim que tudo havia acontecido, eu achava estar no começo de uma vida diferente, mas assim que eu acordei na outra manhã, tudo o que eu tinha era uma puta ressaca, e lembranças do dia anterior. Minha vida era plena de novo, e plena era tudo o que eu não queria.

“Ainda sei exatamente a frustração pela qual eu passei. Eu aprendi a odiar a mim mesmo, e isso era tudo que eu conseguia fazer de agora em diante. É tão estranho pensar que em tão pouco tempo todos seu planos podem ser destruídos, e tudo que você tinha tanto querido, acabou.”

Levantei-me da escrivaninha antes das lágrimas molharem o papel da carta, que planejava nunca enviar, porque mesmo estando errado, meu orgulho me dizia para deixar tudo passar, tentar não lembrar. Sempre fui meio complicado.

“…Não vou ficar repetindo o que eu já disse, acho desnecessário, porque você já sabe de tudo. Eu realmente não espero uma reação boa, e independente de qual ela for, minha consciência se faz tranquila.”

Era mentira. Tranquilidade era no mínimo o oposto do que eu sentia, e confesso que não tinha idéia do que aconteceria depois que ela lesse isso, agora que eu tinha decidido entregar. Ela entendeu, ela soube ser mais racional do que eu.

Até hoje, muito tempo depois, eu ainda me pergunto se eu realmente deveria ter falado aquilo, se era isso o que eu queria, ou se ter só esquecido seria melhor, mas agora não tem mais volta, e a dúvida do que teria sido sempre existirá.

“The wake up call to a rented room, sounded like an alarm of impending doom”

Grapevine Fires, Death Cab For Cutie


Inspiração, Morbidez e Coração

Segunda-feira, 29 Junho, 2009

Nunca conseguiria se perdoar por isso ter acontecido, nada o convenceria de que não havia sido sua culpa. Acabara de receber uma ligação do hospital. Seu amigo fora encontrado pela colega de quarto, totalmente imóvel no chão, com uma seringa ainda espetada no braço. Quando os paramédicos chegaram, ela desesperadamente tentava conversar, pedindo pra o já quase morto colega ter forças e continuar com ela. Estava com as pupilas contraídas, amareladas, quase sem pulso, e não conseguia fazer nada mais que balbuciar ‘me desculpe’, quase se afogando na própria saliva.

Largou o telefone sem reação. A boca aberta, a mão trêmula, a voz não saía. A esposa perguntara o que aconteceu, e ele, sem conseguir respirar direito respondeu: “O Gui… Hospital”. A notícia foi um choque, ele não conseguia acreditar. Fer, a colega de quarto, havia ligado e falado que ela tinha encontrado o amigo desmaiado no chão do quarto, e que agora ele estava na UTI, mas isso foi o suficiente para deixar todos sem reação.

Quando voltou a si, saiu correndo a pegar as chaves do carro, e saiu correndo, de pijama e meias, com a esposa indo junto. Não conseguia nem colocar a chave na ignição do carro, tamanho nervosismo. Ela se ofereceu para dirigir, ele fingiu não ouvir, e saiu, correndo o máximo que podia para chegar depressa. Era madrugada, a rua estava deserta, e loucamente Edson passava pelos sinais vermelhos sem nem se preocupar em diminuir a velocidade. Um clarão forte, um barulho ensurdecedor, sentiu a cabeça rodando, e inútil e imponentemente tentava proteger ela com o próprio corpo. Tudo apagou, e uma sirene foi chegando mais perto. Abriu os olhos, a respiração ofegante, olhou para o lado, viu a mulher apagada e sangrando. Começou a gritar por socorro, e a multidão já começava a se formar envolta do acidente. A ambulancia chegou, e ele pediu que a tirassem primeiro, disse que com ele estava tudo bem.

As duas ambulancias saíram em direção à Santa Casa, e Edson, que sempre havia se declarado convictamente ateu, começou a rezar, pedindo que nada acontecesse a ela. Ele sabia que não suportaria se algo acontecesse a menina que ensinou a ele a amar, e que era a única pessoa pela qual, romanticamente, ele já conseguira sentir algo verdadeiro.

Negando-se a fazer os exames pedidos, alegando estar se sentindo bem, ele pediu para ver a esposa, mas os médicos apenas o disseram para aguardar. Foi até a recepção, mancando e com um corte ainda sangrando na testa, e pediu notícias do amigo. “Ele está na UTI, e está proibida a entrada de visitantes”. Sensação de impotência, nunca ele havia passado por minutos tão longos na vida, e ele realmente não podia fazer nada agora. Sentou-se, e foi aí que tudo o que estava acontecendo passou pela cabeça dele. Uma única lágrima caiu, a primeira da sua vida. A idéia de ter um amigo entre a vida e a morte já era terrível, e agora ele também sentia a culpa de ter feito isso com a esposa.

Ergueu os olhos, um senhor de meia idade, cabelos brancos, barba feita e jaleco branco caminhava em sua direção. “Sr. Edson, sinto muito… Sua esposa sofreu um trauma encefálico grave, e entrou em coma naturalmente. O prognóstico não é bom, e receamos que ela entre em estado vegetativo. Ela foi transferida para um quarto. O senhor pode ir lá agora.”

Sentiu-se um idiota por ainda ter tido esperança de que Deus o ajudaria. Se um dia ele havia deixado de acreditar nisso, não havia motivos pra se rebaixar e voltar a fazer promessas, que novamente não foram atendidas. Levantou-se, mas, ao invés de ir ver a esposa já praticamente morta, tomou o caminho contrário, e foi para a rua. Ele não havia dado a si mesmo outra escolha, e preferia fazer isso antes de possivelmente receber a segunda pior notícia que ele poderia.

Encontrou um orelhão, e fez uma única ligação pedindo a Fernanda que cuidasse de Gui. Sabia que o amigo o entenderia. Desligou sem deixá-la responder, porque ninguém o faria mudar de idéia. Ela estava no quarto ao lado de Gui, já acordado, ainda meio grogue e moribundo, mas já consciente. Nenhum dos dois ficara sabendo do acidente. Curioso pela expressão tensa da colega após receber a ligação, Gui perguntou quem havia ligado. Ela achou melhor esconder e, tentando fingir um sorriso, disse: “Não importa”. E agora já não importava mesmo.

“How many times do you wanna die? How many ways do you wanna die?”

The Royal We, Silversun Pickups