Vinho

Sexta-Feira, 25 Setembro, 2009

“Convidamo-vos a participar do almoço promovido pela Escola Católica São Marcelino Champagnat para confraternização de pais, à ser realizado no Espaço Gala, dia primeiro de novembro.”

Calças jeans combinando com camisetas de grife, tênis de marca e bonés, comprados com mais esforço do que o necessário para alimentar uma família inteira de desabrigados por um mês. Minissaias, salto alto, vestidos que deixavam as pernas sentir o vento – que faziam alguns meninos e algumas meninas rezar para ser forte – e decotes que podiam ter sua função confundida com uma área de ventilação para umbigos. Pais, mães, filhos e filhas buscando, por detrás dos olhares e sorrisos falsos de cumprimento trocados, pela maior aceitação social.

Esgueirando-me pelas mesas enquanto equilibrava a bandeja com bebidas no braço direito, ouvi a conversa de um casal de jovens sentados sozinhos em uma mesa:

- Meus pais vão viajar amanhã…
- Acho que você vai ter que matar aula pra ter tempo de saber tudo que eu quero fazer com voce.
- Para de me deixar animadinha aqui, guarda esse fogo pra amanhã!

Senti um prazer malévolo ao perceber a ignorância paterna ao achar que ao pregar valores cristãos da boca pra fora aos filhos criarão santos, e uma risada sarcástica ecoou pela minha mente quando vi dois pais em pé, olhando para aquela mesa e comentando:

- Olha lá meu menino e sua menina conversando…
- É, eles estudam juntos. Devem estar comentando alguma matéria.

É, cara. Biologia.

“How she’s down with the wise well-constructed disguise”

The Party Song, Blink 182


Alvorada

Sexta-Feira, 24 Julho, 2009

Tomava seu banho, fazia o café para aguentar acordada a madrugada de trabalho, e colocava sua roupa, já nem mais reparando no que estava vestindo, agora que essa rotina já era comum e seu guarda-roupa se resumia à minisaias e blusas decotadas. Abria a porta de casa às onze da noite, sentia o vento frio gelando as pernas, e sabia que passaria horas assim, mas não tinha escolha.

O trabalho era perigoso, e o canivete vermelho que sempre carregava na bolsa já a havia salvado algumas vezes. Lembrava-se até hoje da primeira vez que teve de usá-lo. Um senhor acabara de levá-la de volta, e assim que desceu do carro, um homem pouco mais novo que ela e com aparência surrada vinha em sua direção. Passou por ela, colocou a mão na cintura e a abordou. No calor do momento, no desespero de não perder todo o dinheiro que havia ganho naquela noite, ela o atacou. Um corte no braço, que o fez ir embora, assustado, e ela correr para casa, desesperada por ter feito o que acabara de fazer.

Chegou em casa ofegante e suando, e ao ver uma pessoa deitada imóvel na frente do portão não se sentiu surpresa. Isso já acontecia há tempos, e ela chegava até a agradecer pelas vezes que ele não sumia pela noite inteira. Mesmo abalada carregou o marido para dentro de casa, o colocou no sofá e deixou um balde do lado. Sabia que não devia ajudá-lo, mas não conseguia fazê-lo. Mesmo ele já não sendo mais a pessoa por quem ela se apaixonara anos antes, ainda havia muito afeto da parte dela, e ele, que não tinha nenhum outro alguém para sustentá-lo, era o único motivo para ela continuar com a vida que levava.

Exausta, deitou na cama e dormiu. Acordou por volta da uma da tarde, foi dar uma olhada no sofá, mas sabia que já não haveria mais ninguém lá. Resolveu passar a tarde em casa. Ainda não conseguira se acostumar com os acontecimentos da noite passada, e, remoendo os fatos, começou a se perguntar se realmente valia a pena passar por tudo isso, e a pensar em como seria sua vida sem ele, mas só a idéia disso já a perturbava tanto que ela se obrigou a tentar continuar sem mudanças.

Distêmica, mas mesmo assim se arrumando para mais uma noite na rua, ela não conseguia esquecer o que passara. Conformidade não era uma opção, ela tinha de dar um jeito de mudar sua vida sem perdê-lo, só ainda não sabia como, e isso a estava perturbando profundamente. O telefone toca. Há anos já não falava com sua irmã, única família que tinha, e que, apesar de tentar disfarçar, a desprezava pelo que deixara a vida se tornar. A notícia era ruim, e o momento péssimo. Um convite para o casamento, numa casa de festas grande e cara. O marido devia ser rico, pensou, e lembrou do inútil que ela sustentava. Desligou o telefone, e naquele momento sentiu a maior inveja que já havia sentido. Era insuportável. Tão parecidas, mesmo sangue, porém uma estava com a vida feita, enquanto a outra sentia a sua ser tirada. Saiu de casa, e numa mistura de ódio a si mesma e inveja da própria irmã, gritou o mais alto que pode, e com um soco de raiva no muro ao seu lado obrigou-se a sentir dor.

Uma moto parou à sua frente e um homem de preto fez sinal chamando-a.

- Quanto?

Sentiu-se estranha. Não conseguia nem forçar o sorriso que sempre dava para fazer os perdedores que a abordavam se sentirem menos inúteis. “O cara veio de moto!”, pensou. “Quem pega uma puta de moto? Merda.”.

- Seu relógio, gostei dele.
- Certo.

Ruas escuras, lugar afastado, chegaram em uma casa de madeira. O cachorro latiu, e o homem, um japonês com no máximo um metro e sessenta o mandou calar-se, e olhou para trás, procurando por alguém que estivesse olhando. Certamente não queria os vizinhos comentando que ele era tão incapaz a ponto de ter que pagar por sexo.

Ela já estivera em lugares piores. Muito piores, como aquela vez que, um dia antes de seu aniversário de casamento e precisando de dinheiro para comprar um presente, aceitou dar debaixo de um viaduto. Ela deu, além da bunda para um idiota, uma pulseira para o marido no que talvez fora um dos dias mais feliz que tivera com ele, depois que, já conformada de que ele não ia se lembrar, ganhou uma caixinha cinza em forma de coração, e mesmo sem saber exatamente o que fazer com aquilo, a colocou sobre a mesa de cabeceira.

Nada de diferente ocorrera, mas ela não conseguia controlar o desprezo que sentia pelo homem. Talvez estivesse percebendo que nada disso valia a pena. Precisava pensar. Resolveu que depois de fazer o serviço iria para casa.

Deitou-se no chão, ele sentou-se ao seu lado e começou a acariciar seus cabelos e a beijá-la.

- Me come logo.

Porra, ele estava pagando, não precisava agradá-la. Ela era mercadoria, ela não queria carinho. Abominava carinho. Achava o cúmulo da babaquisse tentar se mostrar legal à uma prostituta. Você paga e tem o que quer, não precisa fazer nada, além de pagar.

Estava irritado. Ela o sentia, de dentro para fora, irritado, e isso aumentava cada vez mais a raiva que ela estava sentindo. Gemia, mas não de prazer, e nem de dor. Era ódio. O abraçou usando as unhas, e com a maior força que conseguia fazer o arranhava. Ele era estranho, parecia gostar, parecia achar que os arranhões eram de prazer, e a puta, que era como se sentia agora, o fazia cada vez mais forte. O pediu que o chupasse, ela obedeceu, vendo nesse momento um jeito melhor de mostrar o ódio que sentia não por ele, que nada tinha feito além de ser um perdedor, mas pelo que a vida a tornara, por tudo que estava guardado dentro dela.

- VADIA!

Sentiu um tapa no rosto, e caiu de lado no chão, enquanto ele, gemendo de dor, tentava chutá-la. Desviando dos golpes conseguiu pegar a saia e a bolsa no chão, e levantar-se para correr em direção à porta. Antes de alcançá-la, sentiu um puxão no cabelo e caiu de joelhos, virada para ele. Viu sangue, e só então percebeu que ele não a deixaria sair dali. Tateava o chão à procura da bolsa que tinha lhe escapado depois de tomar uma joelhada no queixo. Ela só tinha uma escolha. Tirou da bolsa aquilo que tempos antes pretendera nunca mais usar, e dando um golpe na perna que ainda a tentava chutar no escuro conseguiu tempo para fugir.

Desesperada, correu algumas quadras só de saia, ainda segurando a blusa e a bolsa na mão. Parou, vestiu-se, e tentou descobrir onde estava. Não fazia idéia, e àquela hora não encontraria ninguém para ajudá-la. Caminhou um bom tempo até achar um ponto de táxi. Ainda tinha o relógio recebido horas antes na bolsa. O estúpido, além de ter servido de cachorro quente para puta, tinha pago por isso.

Deu o endereço ao taxista e ofereceu o relógio como pagamento, e, sentada no banco de trás, afundou o rosto na bolsa para esconder as lágrimas que não vieram. Ela sentia ódio, mais do que jamais havia sentido. Queria gritar para todos ouvirem, gritar até que tudo à sua volta sumisse, até que essa raiva passasse e as memórias se apagassem. Desceu na frente da casa, que ainda estava com as luzes apagadas, mas não entrou. Não conseguiria dormir, e caminhar a fazia sentir-se melhor, então andou, sem destino, sem rumo, sem parar, tentando não pensar. Já via o sol quando resolveu voltar para casa. Viu uma senhora varrendo a calçada, e perguntou-lhe as horas. A mulher a olhou de um jeito estranho, e só então ela lembrou que ainda estava com a roupa da noite anterior, e que devia parecer acabada. Andava mais rápido. Agora só queria chegar em casa, deitar e dormir para esquecer, nem que fosse por algumas horas, de tudo.

Da esquina viu alguém com aparência de mendigo deitado na calçada, em frente ao portão da casa. Revirou a bolsa procurando as chaves quando se deu conta de quem era o bêbado no portão. Chegou ao lado dele, que dormia, e, chamando-o pelo nome, tocou-lhe o ombro, mas no coração não guardava apreensão, e a sensação de nostalgia que tinha sempre que o tocava dessa vez não veio. Diferente de antes, as atitudes dele eram discutíveis, ou melhor, indiscutíveis agora que a culpa pelo seu jeito de viver começava a cair sobre ele.

Abriu o portão e entrou em casa, deixando-o jogado, enquanto ele tentava se levantar usando o muro como apoio, com as pernas ainda tremendo e a cabeça rodando.

Jogou a bolsa ao lado da cama e deitou-se de bruços sem nem trocar de roupa, quando ouviu a porta batendo e uma voz que falava soluçando, ainda enrolando as palavras, e cuspindo:

- Faz horas que eu to te esperando pra abrir essa porra de porta! Onde voce tava?

Se esforçou pra não responder, porque agora sabia que não responderia mais com palavras afetivas. Além do mais, ele logo cansaria e a deixaria dormir em paz, para talvez acordar no passado, ou pelo menos em um dia mais normal.

- E ainda tem a cara de pau de chegar e ir dormir! Ninguém limpa essa casa mais? E cadê meu café? Levanta daí!

Continuou imóvel. Como se já não bastasse a noite que passara, ainda tinha que aguentar ser incomodada pelo peso morto que ela praticamente adotara. Sentiu uma mão segurando-a pelo braço e a virando para o lado. Abriu os olhos e econtrou os dele a olhando de perto, mais perto do que ela iria suportar.

- Eu queria que não fosse verdade, – disse ela, forçando-se a soar com uma tranquilidade pálida – mas é assim que eu te vejo agora, como um merda, e mesmo querendo colocar toda a culpa em você eu não consigo. Eu queria nunca ter te conhecido, ou pelo menos não ter sido tão burra de me deixar levar até aqui.

- Do que você tá falando?
- De você.
- E do que você me chamou? – falou, rangendo os dentes e empurrando-a com força contra o colchão.
- Ai meu braço, caralho! Me solta!
- Repete!

Um barulho seco, tudo ficou escuro por pouco tempo, sentiu o lado direito do rosto quente, e com toda a força que conseguiu fazer, gritou:

- UM MERDA! EU DISSE QUE VOCÊ É UM MERDA!

A mão dele levantava denovo, enquanto ele a fitava com um ódio animalesco, mas, como se no fundo daquele olhar ainda existisse alguém, uma lágrima escorreu pelo olho esquerdo, e um momento de hesitação apareceu, mas aquela pequena gota de água era leve demais para pará-lo.

Aproveitando o desequilibrio dele depois de dar outro tapa, o jogou para o lado da cama e correu para a cozinha no que pareceu uma eternidade. Ela não pode deixar de comparar isso ao que tinha acontecido na noite anterior. Essa cena parecia familiar para ela, como se soubesse que um dia esse acidente conteceria, como se tivesse cada cena dele já planejada em sua mente. Com uma certa tranquilidade incoerente ficou parada, encostada na pia esperando. Ele se levantou, caminhou rapidamente com passos pesados até a cozinha, e exatamente como ela esperava, franziu o cenho e segurou-a pela garganta. Sem dizer uma palavra, enquanto o via fechar o punho, tateou a pia e sentiu um garfo. Como na recente briga com um estranho, aliás, agora também em uma briga com um estranho, ela empunhou a primeira arma que achou e o atacou, dessa vez mirando no pescoço. Pôde ouvir a pele se abrindo, enquanto os dentes penetravam cada vez mais fundo na carne, que sangrava, desenhando quatro feixes que escorriam na pele até tingir-lhe a camiseta verde.

Escorregou as costas no armário da pia até chegar ao chão, e colocou a cabeça ao lado daquele verde que já não era mais de esperança, sentindo-se apenas indiferente. Lembrou de alguns momentos juntos, apenas dos bons, e podia sentir o calor do corpo dele, que já não emanava mais, tocando no dela, naquela que se fez a lembrança mais marcante, enquanto a mesa rangia para aguentar o peso dos dois corpos suados.

Andou até o quarto, queria guardar as memórias consigo. Pegou o presente ganho tempos antes que agora se faria útil e, usando aquele mesmo canivete que estava ainda sujo na bolsa, separou do corpo dele a parte que remetia às melhores lembranças e a guardou na caixinha que voltou para perto de sua cama, descansando agora controlada e eternamente ao seu lado.

“I’ve been locked inside your heart-shaped box for weeks”

Heart-Shaped Box, Nirvana