Inspiração, Morbidez e Coração

Segunda-feira, 29 Junho, 2009

Nunca conseguiria se perdoar por isso ter acontecido, nada o convenceria de que não havia sido sua culpa. Acabara de receber uma ligação do hospital. Seu amigo fora encontrado pela colega de quarto, totalmente imóvel no chão, com uma seringa ainda espetada no braço. Quando os paramédicos chegaram, ela desesperadamente tentava conversar, pedindo pra o já quase morto colega ter forças e continuar com ela. Estava com as pupilas contraídas, amareladas, quase sem pulso, e não conseguia fazer nada mais que balbuciar ‘me desculpe’, quase se afogando na própria saliva.

Largou o telefone sem reação. A boca aberta, a mão trêmula, a voz não saía. A esposa perguntara o que aconteceu, e ele, sem conseguir respirar direito respondeu: “O Gui… Hospital”. A notícia foi um choque, ele não conseguia acreditar. Fer, a colega de quarto, havia ligado e falado que ela tinha encontrado o amigo desmaiado no chão do quarto, e que agora ele estava na UTI, mas isso foi o suficiente para deixar todos sem reação.

Quando voltou a si, saiu correndo a pegar as chaves do carro, e saiu correndo, de pijama e meias, com a esposa indo junto. Não conseguia nem colocar a chave na ignição do carro, tamanho nervosismo. Ela se ofereceu para dirigir, ele fingiu não ouvir, e saiu, correndo o máximo que podia para chegar depressa. Era madrugada, a rua estava deserta, e loucamente Edson passava pelos sinais vermelhos sem nem se preocupar em diminuir a velocidade. Um clarão forte, um barulho ensurdecedor, sentiu a cabeça rodando, e inútil e imponentemente tentava proteger ela com o próprio corpo. Tudo apagou, e uma sirene foi chegando mais perto. Abriu os olhos, a respiração ofegante, olhou para o lado, viu a mulher apagada e sangrando. Começou a gritar por socorro, e a multidão já começava a se formar envolta do acidente. A ambulancia chegou, e ele pediu que a tirassem primeiro, disse que com ele estava tudo bem.

As duas ambulancias saíram em direção à Santa Casa, e Edson, que sempre havia se declarado convictamente ateu, começou a rezar, pedindo que nada acontecesse a ela. Ele sabia que não suportaria se algo acontecesse a menina que ensinou a ele a amar, e que era a única pessoa pela qual, romanticamente, ele já conseguira sentir algo verdadeiro.

Negando-se a fazer os exames pedidos, alegando estar se sentindo bem, ele pediu para ver a esposa, mas os médicos apenas o disseram para aguardar. Foi até a recepção, mancando e com um corte ainda sangrando na testa, e pediu notícias do amigo. “Ele está na UTI, e está proibida a entrada de visitantes”. Sensação de impotência, nunca ele havia passado por minutos tão longos na vida, e ele realmente não podia fazer nada agora. Sentou-se, e foi aí que tudo o que estava acontecendo passou pela cabeça dele. Uma única lágrima caiu, a primeira da sua vida. A idéia de ter um amigo entre a vida e a morte já era terrível, e agora ele também sentia a culpa de ter feito isso com a esposa.

Ergueu os olhos, um senhor de meia idade, cabelos brancos, barba feita e jaleco branco caminhava em sua direção. “Sr. Edson, sinto muito… Sua esposa sofreu um trauma encefálico grave, e entrou em coma naturalmente. O prognóstico não é bom, e receamos que ela entre em continue em estado de coma. O senhor pode vê-la agora.”

Sentiu-se um idiota por ainda ter tido esperança de que Deus o ajudaria. Se um dia ele havia deixado de acreditar nisso, não havia motivos pra se rebaixar e voltar a fazer promessas, que novamente não foram atendidas. Levantou-se, mas, ao invés de ir ver a esposa já praticamente morta, tomou o caminho contrário, e foi para a rua. Ele não havia dado a si mesmo outra escolha, e preferia fazer isso antes de possivelmente receber a segunda pior notícia que ele poderia.

Encontrou um orelhão, e fez uma única ligação pedindo a Fernanda que cuidasse de Gui. Sabia que o amigo o entenderia. Desligou sem deixá-la responder, porque ninguém o faria mudar de idéia. Ela estava no quarto ao lado de Gui, já acordado, ainda meio grogue e moribundo, mas já consciente. Nenhum dos dois ficara sabendo do acidente. Curioso pela expressão tensa da colega após receber a ligação, Gui perguntou quem havia ligado. Ela achou melhor esconder e, tentando fingir um sorriso, disse: “Não importa”. E agora já não importava mesmo.

“How many times do you wanna die? How many ways do you wanna die?”

The Royal We, Silversun Pickups


Preto e Branco

Domingo, 28 Junho, 2009

Tudo parece tão distante agora. Estou sentado, olho um ponto fixo na parede, nada é capaz de me distrair. Me sinto estranho, me sinto pesado, e o tempo parece não passar. Falam que o passar dos dias faz tudo mais fácil. Eu não acredito. Eu esperei, e só o que acontecia era piorar, então eu tive que fazer alguma coisa.

Eu lembro das fantasias que criava, e rio de pensar que eu realmente esperava que tudo o que eu queria aconteceria, e que podia conseguir qualquer coisa. Já tinham me falado que excesso de confiança podia ser ruim, e eu me sinto muito burro por não ter ouvido. Eu nunca ouço, sempre tenho que testar por mim mesmo, merda. Tudo parece mais fácil quando é só hipótese, mas quando realmente acontece, nada sai como o esperado.

De algum jeito eu aparentava estar menos triste que antes. Uma reação inesperada, que nem eu mesmo conseguia entender, e mesmo remoendo fatos parece impossível achar um motivo pelo qual eu dei aquela resposta. Talvez eu tenha só decidido aceitar, e mesmo que isso possa ser confundido com covardear, eu desisto de entender, desisto de esperar, e desisto de fazer, se isso, apenas aceitar, for me fazer sentir melhor, mesmo que só um pouco.

Levanto e saio denovo, torço para que dessa vez, com um pouco mais, eu torne isso mais suportável, ou talvez para que, por um descuido, demais faça tudo acabar.

“And what do i get for my pain? betrayed desires and a piece of the game”

Bullet With Butterfly Wings, The Smashing Pumpkins


Dispensa da crença, suspensão da descrença

Quinta-feira, 25 Junho, 2009

Já há algumas horas rolando no chão frio, que agora era sua cama, tentando não pensar em nada, levantou -se. Não conseguia mais ficar parado, não queria mais remoer fatos, tentando achar explicações, mas o lugar estava carregado de lembranças que levavam a perguntas sem resposta. Ultimamente sentia-se assim em qualquer lugar, com qualquer companhia, em qualquer estado. Mas tentando sempre esconder o que estava acontecendo, conseguia quase sempre fugir das conversas emocionais que sempre o incomodaram, e que agora evitaria a qualquer custo.

Crença antiga, que agora ficara no passado. Se antes não tinha certeza, agora, depois de tantos pedidos não atendidos, perguntas sem resposta, e incontáveis promessas não cumpridas por nenhuma das partes, a certeza de que nada existia, existia.

O última coisa que o mantinha próximo disso não fazia mais sentido, então desamarrou os nós dados com carinho tempos antes, e, mesmo com uma resistência a esse ato, queimou a corrente, e então as imagens até a metade, que depois foram guardadas e carregadas à todo lugar, talvez por vestígio de esperança. Mas a espera foi longa, longa demais, e saber que tanto tempo fora desperdiçado enganando a si mesmo, por ter se deixado antes enganar por outros criava agora uma frustração maior que tudo.

Colocou o tênis que mais machucava seu pé, uma blusa grossa, as duas imagens no bolso direito, e saiu caminhando sem rumo, até parar acidentalmente na frente de uma igreja, vista antes muitas vezes, mas que agora tinha, dentro dele, um sentido completamente diferente, ou melhor, uma total falta de sentido. Sentou na entrada, acendeu um cigarro, e brincava com as duas pequenas peças quando atrás dele um senhor apareceu. De roupa preta, perceptivelmente velho, com ar de sabedoria, e como se pudesse sentir o que estava acontecendo, perguntou, estendendo a mão: “Acabou?”. O rapaz deu uma ultima olhada para sua mão, e então entregou o que tinha, sem dizer uma palavra. “Você virá aqui para pegar isso de volta”, ouviu quando já estava de costas.

“And all those words that you don’t say just mean less and less each day”

Don’t, Blink 182