Nunca conseguiria se perdoar por isso ter acontecido, nada o convenceria de que não havia sido sua culpa. Acabara de receber uma ligação do hospital. Seu amigo fora encontrado pela colega de quarto, totalmente imóvel no chão, com uma seringa ainda espetada no braço. Quando os paramédicos chegaram, ela desesperadamente tentava conversar, pedindo pra o já quase morto colega ter forças e continuar com ela. Estava com as pupilas contraídas, amareladas, quase sem pulso, e não conseguia fazer nada mais que balbuciar ‘me desculpe’, quase se afogando na própria saliva.
Largou o telefone sem reação. A boca aberta, a mão trêmula, a voz não saía. A esposa perguntara o que aconteceu, e ele, sem conseguir respirar direito respondeu: “O Gui… Hospital”. A notícia foi um choque, ele não conseguia acreditar. Fer, a colega de quarto, havia ligado e falado que ela tinha encontrado o amigo desmaiado no chão do quarto, e que agora ele estava na UTI, mas isso foi o suficiente para deixar todos sem reação.
Quando voltou a si, saiu correndo a pegar as chaves do carro, e saiu correndo, de pijama e meias, com a esposa indo junto. Não conseguia nem colocar a chave na ignição do carro, tamanho nervosismo. Ela se ofereceu para dirigir, ele fingiu não ouvir, e saiu, correndo o máximo que podia para chegar depressa. Era madrugada, a rua estava deserta, e loucamente Edson passava pelos sinais vermelhos sem nem se preocupar em diminuir a velocidade. Um clarão forte, um barulho ensurdecedor, sentiu a cabeça rodando, e inútil e imponentemente tentava proteger ela com o próprio corpo. Tudo apagou, e uma sirene foi chegando mais perto. Abriu os olhos, a respiração ofegante, olhou para o lado, viu a mulher apagada e sangrando. Começou a gritar por socorro, e a multidão já começava a se formar envolta do acidente. A ambulancia chegou, e ele pediu que a tirassem primeiro, disse que com ele estava tudo bem.
As duas ambulancias saíram em direção à Santa Casa, e Edson, que sempre havia se declarado convictamente ateu, começou a rezar, pedindo que nada acontecesse a ela. Ele sabia que não suportaria se algo acontecesse a menina que ensinou a ele a amar, e que era a única pessoa pela qual, romanticamente, ele já conseguira sentir algo verdadeiro.
Negando-se a fazer os exames pedidos, alegando estar se sentindo bem, ele pediu para ver a esposa, mas os médicos apenas o disseram para aguardar. Foi até a recepção, mancando e com um corte ainda sangrando na testa, e pediu notícias do amigo. “Ele está na UTI, e está proibida a entrada de visitantes”. Sensação de impotência, nunca ele havia passado por minutos tão longos na vida, e ele realmente não podia fazer nada agora. Sentou-se, e foi aí que tudo o que estava acontecendo passou pela cabeça dele. Uma única lágrima caiu, a primeira da sua vida. A idéia de ter um amigo entre a vida e a morte já era terrível, e agora ele também sentia a culpa de ter feito isso com a esposa.
Ergueu os olhos, um senhor de meia idade, cabelos brancos, barba feita e jaleco branco caminhava em sua direção. “Sr. Edson, sinto muito… Sua esposa sofreu um trauma encefálico grave, e entrou em coma naturalmente. O prognóstico não é bom, e receamos que ela entre em continue em estado de coma. O senhor pode vê-la agora.”
Sentiu-se um idiota por ainda ter tido esperança de que Deus o ajudaria. Se um dia ele havia deixado de acreditar nisso, não havia motivos pra se rebaixar e voltar a fazer promessas, que novamente não foram atendidas. Levantou-se, mas, ao invés de ir ver a esposa já praticamente morta, tomou o caminho contrário, e foi para a rua. Ele não havia dado a si mesmo outra escolha, e preferia fazer isso antes de possivelmente receber a segunda pior notícia que ele poderia.
Encontrou um orelhão, e fez uma única ligação pedindo a Fernanda que cuidasse de Gui. Sabia que o amigo o entenderia. Desligou sem deixá-la responder, porque ninguém o faria mudar de idéia. Ela estava no quarto ao lado de Gui, já acordado, ainda meio grogue e moribundo, mas já consciente. Nenhum dos dois ficara sabendo do acidente. Curioso pela expressão tensa da colega após receber a ligação, Gui perguntou quem havia ligado. Ela achou melhor esconder e, tentando fingir um sorriso, disse: “Não importa”. E agora já não importava mesmo.
“How many times do you wanna die? How many ways do you wanna die?”
The Royal We, Silversun Pickups
Escrito por Carlos Gois
Escrito por Carlos Gois
Escrito por Carlos Gois